Certa vez, dez anos antes, o Ramos se erguera e ficara um longo tempo nos olhando, com afeto, antes de falar. Nos olhara um por um, como se nos abençoasse. Depois dissera: “Guardem este momento. Um dia nos lembraremos dele e diremos: foi o nosso melhor momento. Compararemos outros momentos das nossas vidas com ele e diremos que nunca mais fomos assim, exatamente assim. Nos saciaremos de novo, por certo, pois essa é a bênção do apetite. Não é todo dia que se quer ver um pastoso Van Gogh ou ouvir uma crocante fuga de Bach, ou amar uma suculenta mulher, mas todos os dias se quer comer, a fome é o desejo reincidente, é o único desejo reincidente, pois a visão acaba, a audição acaba, o sexo acaba, o poder acaba mas a fome continua, e se um fastio de Ravel é para sempre, um fastio de pastel não dura um dia.” Em vez de “Ravel” e “pastel” ele talvez tenha dito “Pachebel” e “bechamel”, estou citando de memória. Ramos: “Mas mesmo saciados, nunca mais estaremos saciados como agora, cheios das nossas próprias virtudes e do nosso prazer na amizade, na comida e na vida – e no conhaque.” E ele erguera seu copo, fazendo com que todos erguessem o seu. “Senhor, exultai. Estamos no nosso ápice.” Todos beberam. Depois ele dissera: “Senhores, chorai. Começou o nosso declínio.” E todos beberam, mais alegres ainda. Naquela noite só saímos da mesa às cinco da manhã.

cyclonebill

O clube dos anjos, Luis Fernando Verissimo, p. 41 e 42. Ed. Objetiva. Coleção Plenos Pecados.

Quem sabe a culpa não é minha, murmurou Joaquim Sassa, Não te ponhas em conta tão alta, ao ponto de te considerares culpado por tudo, Refiro-me à Veneza, a perder-se Veneza, De perder-se Veneza será geral a culpa, e antiga, por desleixo e ganância já se perdia, Não falo dessas causas, por elas se perde o mundo todo, falo sim do que eu fiz, atirei uma pedra ao mar e há quem acredite que foi razão de arrancar-se a península à Europa, Se um dia tiveres um filho, ele morrerá porque tu nasceste, deste crime ninguém te absolverá, as mãos que fazem e tecem são as mesmas que desfazem e destecem, o certo gera o errado, o errado produz o certo, Fraca consolação para um aflito, Não há consolação, amigo triste, o homem é um animal inconsolável.

A jangada de pedra, José Saramago, p. 62.

Sugestão de Larissa Veloso

E se eu fosse o primeiro a voltar
Pra mudar o que eu fiz,
Quem então agora eu seria?

(…)

Eu sei que ainda vou voltar…
Mas eu quem será?

(…)

E se eu for
O primeiro a prever
E poder desistir
Do que for dar errado?

(…)

Ah, se o que eu sou
É também o que eu escolhi ser
Aceito a condição

Música O velho e moço, Los Hermanos, composição Rodrigo Amarante.

’cause I’m a bad man, I do what I can.

All hail me, música da banda Veruca Salt.

Todos nós temos a necessidade de ser olhados. Podemos ser classificados em quatro categorias, segundo o tipo de olhar sob o qual queremos viver.

A primeira procura o olhar de um número infinito de pessoas anônimas, em outras palavras, o olhar do público. É o caso do cantor alemão e da artista americana; é também o caso do jornalista de queixo comprido. Estava habituado com seus leitores e, quando a revista foi proibida pelos russos, teve a impressão de que vivia numa atmosfera mil vezes rarefeita. Para ele, ninguém podia substituir o olhar das pessoas desconhecidas. Sentia-se sufocar, e um dia compreendeu que estava sendo seguido a cada passo pela polícia, que estava sendo escutado quando falava ao telefone, e até mesmo discretamente fotografado na rua. Então, de repente, pôde respirar de novo! Interpelava, em tom teatral, os microfones escondidos nas paredes. Encontrara na polícia seu público perdido.

Na segunda categoria estão aqueles que não podem viver sem ser o foco de numerosos olhos familiares. São os incansáveis organizadores de coquetéis e jantares, mais felizes do que os da primeira categoria, que quando perdem seu público imaginam que a luz se apagou na sala de suas vidas. É o que acontece a todos, mais dia menos dia. As pessoas da segunda categoria sempre conseguem arrumar quem as olhe. Marie-Claude e a filha pertencem a ela.

Vem em seguida a terceira categoria, aqueles que têm necessidade de viver sob o olhar o ser amado. A situação destas pessoas é tão perigosa quanto a daquela da primeira categoria. Basta que os olhos do ser amado se fechem para que a sala fique mergulhada na escuridão. É entre essas pessoas que devemos colocar Tereza e Tomas.

Por fim, existe a quarta categoria, a mais rara, a daqueles que vivem sob o olhar imaginário dos ausentes. São os sonhadores. Por exemplo, Franz. Se chegou até a fronteira do Camboja, foi unicamente por causa de Sabina. O ônibus sacoleja na estrada da Tailândia e ele sente que Sabina tem os olhos pousados nele.

O filho de Tomas pertence à mesma categoria. Vou chamá-lo de Simon. (Ele se alegrará de ter, como o pai, um nome bíblico.) O olhar que ele aspirar ter sobre si é o de Tomas. Comprometido na campanha pelas assinaturas da petição, foi expulso da universidade. A moça que namorava era sobrinha de um padre do interior. Casou-se com ela, tornou-se motorista de caminhão numa cooperativa, católico praticante e pai de família. Soube que Tomas também estava morando no interior e alegrou-se com isso. Graças ao destino, suas vidas tornavam-se simétricas! Foi o que o incentivou a escrever-lhe uma carta. Não pedia resposta. Só desejava um coisa: que Tomas pousasse o olhar sobre sua vida.

A insustentável leveza do ser, Milan Kundera, p. 271 e 272. Ed. Nova Fronteira, 22ª edição.

Augusta, graças a deus,
Graças a deus,
Entre você e a Angélica
Eu encontrei a Consolação
Que veio olhar por mim
E me deu a mão.
Augusta, que saudade,
Você era vaidosa,
Que saudade,
E gastava o meu dinheiro,
Que saudade,
Com roupas importadas
E outras bobagens.
Angélica, que maldade,
Você sempre me deu bolo,
Que maldade,
E até andava com a roupa,
Que maldade,
Cheirando a consultório médico,
Angélica.
Augusta, graças a deus,
Entre você e a Angélica
Eu encontrei a Consolação
Que veio olhar por mim
E me deu a mão.
Quando eu vi
Que o largo dos aflitos
Não era bastante largo
Pra caber minha aflição,
Eu fui morar na estação da luz,
Porque estava tudo escuro
Dentro do meu coração.


Música de Tom Zé.

Meu lar é onde estão meus sapatos
Um pouco em cada pedaço e lugar

Música de Sá e Guarabyra.

Mas não se diz sempre que o autor só pode falar de si mesmo?

Olhar o pátio com angústia e não conseguir tomar uma decisão; ouvir o ruído obstinado de seu próprio ventre num momento de exaltação amorosa; trair e não poder parar na estrada tão bela das traições: levantar o punho no desfile da Grande Marcha; exibir seu humor diante dos gravadores escondidos pela polícia: eu próprio conheci e vivi todas essas situações; de nenhuma delas, no entanto, saiu o personagem que sou, eu mesmo, no meu curriculum vitae. Os personagens de meu romance são minhas próprias possibilidades que não foram realizadas. É o que me faz amá-los todos e temê-los ao mesmo tempo. Uns e outros atravessaram a fronteira que apenas me limitei a contornar. O que me atrai é essa fronteira que eles ultrapassaram (fronteira para além da qual termina o meu eu). Do outro lado começa o mistério que meu romance interroga. O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que é a vida humana, na armadilha em que se transformou o mundo. Chega! Voltemos a Tomas.

A insustentável leveza do ser, Milan Kundera, p. 222. Ed. Nova Fronteira, 22ª edição.

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